Réquiem – Dores Que a Arte Torna Audível [Wuldson Marcelo]

COLUNAS / WULDSON MARCELO

Réquiem – Dores Que a Arte Torna Audível [Wuldson Marcelo]

Réquiem – Dores Que a Arte Torna Audível

A experiência da guerra e suas subsequentes perturbações emocionais são como ferro em brasa. As marcas que afetam a vida psíquica têm a “força” de destruir os ídolos que construíram e consolidaram os embustes, que sustentam os ideais de superioridade de uma nação, que cedo ou tarde (na maioria dos casos, tarde demais) acabam por gerar a ruína de crenças, sonhos e vidas. Como nos lembra Hannah Arendt, a violência é instrumental, por isso o poder (o grupo que o representa) desenvolve argumentos para amparar e tentar legitimar suas ações violentas. Em um panorama cinza como esse, “Réquiem”, romance da japonesa Shizuko Go, apresenta pequenas vidas vitimadas por poderes que distorcem a noção de poder e acumulam destroços em nome dos ímpetos de grandiosidade. E é justamente nesse percurso sem horizonte que a obra de Go traça seu elogio à amizade e sua representação antimilitarista.

O que pode servir como ilustração da angústia e ao mesmo tempo de elucidação a respeito dos equívocos mais prementes desse mundo pragmático e sentimental dos valores nacionais? Pode uma frase ter esse poder devastador, tornando autor e leitor cúmplices de uma dura jornada pela estrada da desilusão? (Lugar-comum e imagem seminal de uma literatura do desengano e da perdição). “Tudo ficava mais escuro de olhos abertos”. Esta frase proferida pela jovem Setsuko Oizumi, personagem central de “Réquiem”, que ganhou as livrarias em 1972, serve de prelúdio para uma notável dissecação dos tormentos e infortúnios da guerra. Em uma narrativa antilinear, com saltos temporais que, aos poucos, vão montando a história da jovem que está a falecer em um abrigo antiaéreo, Shizuko Go nos proporciona um retrato melancólico e de linhas pacifistas, que é um alerta à humanidade, mas sem cair no melodrama e destacando as implicações pessoais e políticas no engodo da paz pela guerra e da afirmação nacional pelo discurso de uma suposta supremacia da nação.

Setsuko é uma adolescente patriota no Japão da Segunda Guerra Mundial. Um período em que a única verdade é a verdade oficial, estatal, que determina as respostas aos esforços de guerra, aos quais a jovem participa trabalhando em uma fábrica. A crença na vitória e nas justificativas para o sacrifício da população a fazem agir com resignação e esperança num futuro consagrador para o país. Porém, esse mesmo sofrimento físico e emocional podem ser indícios do florescimento das objeções necessárias para deslindar a farsa.

Setsuko é uma menina que possui as suas restrições, como a timidez, assim como a sua força, que é a entrega serena e incondicional à amizade, especialmente a Naomi Niwa, a filha de um suposto traidor. Separadas pela guerra, elas trocam cartas que pontuarão no romance os dissabores do cotidiano imerso no caos. O cenário descrito capta os temores, as decepções, mas também o sopro de vida que a manutenção da sanidade exige. E é nesse processo que Setsuko, em seu derradeiro momento, recorda sua vida. A referência aos olhos abertos no escuro simboliza a gradativa tomada de consciência quando percebemos os equívocos inerentes a toda fé cega nos emblemas nacionais sem a devida criticidade. E com a percepção nítida de que, depois dos anos obscuros, a civilização promove um retorno à barbárie, apoiando-se no jogo político que transforma amor à terra em obediência acrítica. Um ciclo no qual a paz é mantida como pretensão alcançável, mas não como estado realmente almejado.

“Réquiem” insere-se no rol das obras que fizerem emergir apelos contundentes e dilacerantes contra as atrocidades do militarismo e dos domínios econômico e geopolítico que levam a bancarrotas não apenas países, mas também, e essencialmente, desejos e sentimentos. Entre essas obras estão “O Diário de Anne Frank” e o recente “Com Olhos de Menina: Um Diário sobre a Guerra Civil Espanhola”, de Encarnació Martorell.

Setsuko ao longo da narrativa/lembrança assisti à morte das pessoas mais caras a ela. Ao revelar-nos as sucessivas tragédias que abalam a adolescente, Go constrói um libelo contra os conflitos armados, um discurso antibélico denso e sensível. A autora destila com elegância o “pior” remédio para a elucidação, para o despertar: o fim das ilusões. Remédio amargo, libertador e revelador da retórica dogmática do poder. Segundo o escritor britânico Rudyard Kipling, “A primeira vítima da guerra é a verdade.”  Então, o caminho percorrido por Setsuko carrega, a partir da inversão da lógica da não contestação, as idiossincrasias possíveis para descobrir por si mesma o germe do espetáculo do horror contido na aclamação nacionalista.  As adversidades que se acumulam na existência da jovem, que adotou a guerra como uma luta pessoal, projetam o alvorecer da dúvida. Dúvida essa capaz de endossar a amizade entre ela e Naomi, a outra menina que sofre na pele as consequências da guerra: da interdição afetiva, quando o pai, um professor, é detido por discordar das políticas do governo, e da sobrevivência, já que precisa enfrentar os bombardeios e todas as armadilhas da guerra, um evento que é sempre descomunal. Do seu abrigo que a torna um ser encurralado, que aspira ao futuro ou à morte, Setsuko é a imagem da ruína humana. 

A obra de Shizuko Go desvela uma inquietação, um grito de revolta proferido por uma alma soturna cingida pelos pesadelos do furor iminente que a barbárie não cansa de produzir, mas que somente o apego à solidariedade pode combater. E, ademais, pode ser função da arte se sobrepor à burocracia para que sejam ouvidas as vozes daqueles que já se calaram pela brutalidade do sistema e seus jogos de guerra.

Wuldson Marcelo é mestre em Estudos de Cultura Contemporânea e graduado em Filosofia (ambos pela UFMT). É revisor de textos, autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (Editora Multifoco, 2013) e um dos organizadores da coletânea “Beatniks, malditos e marginais em Cuiabá: literatura na Cidade Verde” (Editora Multifoco, 2013).

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Sindhosp elogia indicação de Marcos Pacheco para Saúde

31 de outubro de 2014 – 19h40

 Sindhosp elogia indicação de Marcos Pacheco para Saúde

 O governador eleito, Flávio Dino, recebeu na manhã desta sexta-feira (31) um documento do Sindicato dos Estabelecimentos de Prestadores de Serviços de Saúde em São Luís (Sindhosp-SL) elogiando a indicação do médico Marcos Pacheco para o cargo de secretário de Saúde da próxima gestão.

A mensagem, assinada pelo presidente do Sindicato, Pedro Wanderley de Aragão, afirma que a indicação de Marcos Pacheco “renova nossos anseios de ter ações e projetos exitosos que promovam de fato uma nova realidade para a saúde do Maranhão”.

O documento, além de cumprimentar o novo secretário, também reconhece as dificuldades que serão enfrentadas a partir de 1º de janeiro. Entre os problemas destacados, a deficiência no atendimento prestado ao cidadão pela rede pública estadual e a pouca valorização dos profissionais de saúde.

“Questões que pelos requisitos técnicos, competência e integridade do novo titular da pasta, podem ser encaminhadas com sucesso através de políticas públicas mais resolutivas. A escolha do nome do Dr. Marcos Pacheco”, cita o documento.

Veja a íntegra da nota:

Ilmo. Sr. Flávio Dino

M.D. Governador Eleito do Maranhão

Prezado senhor,

Vimos, por meio deste, externar a V. Sa a satisfação dos estabelecimentos prestadores de serviços de saúde de São Luís com a indicação do Doutor Marcos Pacheco para o cargo de Secretário de Saúde na próxima gestão estadual.

O cenário da saúde pública no Maranhão é desafiador e os muitos problemas do sistema resultam em deficiências no atendimento prestado ao cidadão e na pouca valorização dos profissionais de saúde, questões que pelos requisitos técnicos, competência e integridade do novo titular da pasta, podem ser encaminhadas com sucesso através de políticas públicas mais resolutivas.

A escolha do nome do Dr. Marcos Pacheco renova nossos anseios de ter ações e projetos exitosos que promovam de fato uma nova realidade para a saúde do Maranhão.
Cordiais saudações,

Dr. Pedro Wanderley de Aragão
Presidente do Sindhosp

Da floresta ao laboratório

Da floresta ao laboratório

Conhecimento das comunidades da Amazônia entra em conflito com os interesses da indústria farmacêutica

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“Um dia apareceu um homem aqui querendo que eu curasse o filho dele porque o doutor já tinha dado como perdido. Aí ele veio aqui e eu curei ele”, conta “seu Codorna”. Foto: Ismael Machado

Há uma guerra silenciosa sendo perdida pela indústria nacional e que afeta diretamente a Amazônia. Cada vez mais, grandes empresas multinacionais ligadas a produtos farmacêuticos e de cosméticos percebem que a Floresta Amazônica é uma das maiores fontes atuais e futuras de matéria-prima para os dois setores e investem nisso, muitas vezes à revelia dos governos, que mal sabem como lidar com essa indústria e com a exploração de comunidades tradicionais, envolvidas num discurso de sustentabilidade.

“A indústria mundial está de olho nesses produtos que vem da floresta, mas o setor nacional já perdeu o trem da história”, afirma o farmacêutico e doutor em Ciências Naturais Wagner Barbosa, pesquisador ligado à Universidade Federal do Pará.

Barbosa acredita que a solução seria o investimento nacional na indústria farmacêutica ligada a produtos fitoterápicos, já que a competição com a indústria de produtos farmacêuticos sintéticos não tem condições de competir com as grandes empresas internacionais, por falta de investimentos adequados no setor.

“Existe uma questão política muito forte nessa discussão”, diz o pesquisador. “Quando a política de fitoterápicos se implanta, ela se choca com a dos produtos sintéticos. O grupo que apóia o primeiro não é o mesmo que apóia o segundo”.

Não é difícil entender os motivos. Produtos fitoterápicos envolvem comunidades tradicionais e agricultura familiar. A lógica dos produtos industrializados enfatiza a produção em larga escala e as monoculturas. “É um dilema a ser resolvido”, diz Wagner Barbosa.

Um medicamento fitoterápico é aquele alcançado de plantas medicinais, onde são utilizados exclusivamente derivados de droga vegetal, como suco, cera, óleos, extrato, tintura, entre outros. Os fitoterápicos são medicamentos industrializados e tem legislação específica. São uma mistura complexa de substâncias, onde, na maioria dos casos, o princípio ativo é desconhecido.

O Ministério da Saúde do Brasil reconhece mais de 70 plantas que podem ser utilizadas como medicamento fitoterápico. São produtos extraídos diretamente da floresta e que envolvem, além de tudo, o conhecimento tradicional.

A CURA VEM DAS PLANTAS

Na comunidade África, entre os municípios de Moju e Abaetetuba, no nordeste do Pará, crianças enfermas costumam ser tratadas com plantas do local, cujo conhecimento a respeito das propriedades medicinais de cada erva, folha ou raiz é passada de mãe para filha. São cerca de 20 famílias. Pariri, cabi, carucaá, mucurará…os nomes são complicados, vindos da mistura entre índios e negros. Mas os resultados são simples. Curam anemia, tosse, dores de barriga. É o que garante Domingas da Conceição Moraes, do alto de seus cabelos brancos cultivados ao longo de mais de 80 anos. Domingas é considerada a mais sábia, a melhor entre as que conhecem os segredos das ervas. “Aprendi com os meus pais. Isso é coisa que a gente vai passando de geração a geração. Mas tem de ter o dom”, diz ela.

Na comunidade vizinha de Laranjituba, Francisca Moraes Cardoso também conhece os segredos das plantas, das rezas, das benzeções. “Meu avô era pajé, minha avó era pajé. Eu só uso os saberes quando é necessário. Não abuso muito não”, diz.

É a mesma postura adotada no município de Benevides, na Região Metropolitana de Belém, por João Gualberto Farias da Silva, 63 anos, mais conhecido como “seu Codorna”, apelido que nem ele sabe dizer de onde saiu. Ele também não costuma cobrar pelos serviços que faz. É um curandeiro nato. “Um dia apareceu um homem aqui querendo que eu curasse o filho dele porque o doutor já tinha dado como perdido. Aí ele veio aqui e eu curei ele. Eu nem sabia que tinha o dom da cura, mas Deus sabia”, diz.

É um dom que pode ter vindo da infância. Codorna conta que quando criança via uma luz forte. Segundo ele, era a “luz da cura”. “Só quem tem o dom da cura é que pode ver a luz”, assegura.

Logo a fama se espalhou. Apareceu gente de todos os lugares interessados nas famosas garrafadas feitas por ele e nas receitas de cura. “Vem muita gente me procurar com todo tipo de problema. Coluna, reumatismo, tudo quanto é tipo de dor”, conta.

Conhecimentos simples como esses são preservados porque há um espaço adequado para que essas tradições se mantenham. São as comunidades tradicionais, locais onde antigos valores são ensinados, ao mesmo tempo em que se buscam inserções na sociedade tecnológica atual.

A relação entre essas comunidades a as instituições de pesquisa sempre foram complexas, mas é cada vez maior a busca do que essas pequenas populações têm a oferecer em termos de conhecimento dos saberes da floresta. Quem mais está de olho nessas possibilidades são grandes indústrias, que podem ser farmacêuticas ou de cosméticos. Mas é uma relação com pesos e medidas diferentes, principalmente porque há um descompasso entre os grandes interesses da indústria e a preservação dos saberes locais.

“As comunidades estão tirando os produtos da floresta, mas correm o risco de serem exploradas. É um trabalho de família, de sobrevivência delas, que muitas vezes dependem daquilo, mas é preciso que se tenham os direitos respeitados”, afirma Flávia Lucas.

Flávia trabalha diretamente com os relatos de comunidades sobre as indicações de plantas que curam, mas ainda sem a comprovação em laboratórios. Estuda a partir das receitas e plantas coletadas e a experiência das populações.

“O conhecimento precisa ser protegido, mas o interesse econômico faz com que se pulem etapas”, complementa a pesquisadora Cláudia Martins. Junto a Flávia Lucas, Cláudia desenvolve um trabalho que é conhecido como ‘etnobotânico’. Nele, a pesquisa a respeito das propriedades farmacêuticas de uma planta não está dissociada do respeito ao conhecimento tradicional das comunidades envolvidas.

“Os nossos documentos passam por todos os rigores do Ministério do Meio Ambiente. Não visitamos comunidades de forma exploratória. Para nós, esses saberes tradicionais estão acima de qualquer coisa”, garante Flávia Lucas.

“Chegar à floresta, conhecer e levar um produto envolve convivência, respeito à tradição, à cultura, aos saberes. Tudo isso tem de estar presente para o pesquisador”, afirma Claudia Martins.

“O grande desafio é transformar a imensa diversidade da Amazônia com o conhecimento tradicional associado num potencial farmacológico ainda a ser explorado pelo nosso Estado”, diz a pesquisadora do Museu Emílio Goeldi, Cristiane Amarante.

“Entretanto para a maioria das plantas com indicações farmacológicas, ainda são necessários estudos para confirmar segurança e eficácia. A agricultura familiar, de onde elas vêm, é uma das prioridades do Governo Federal e apresenta como vantagens a disponibilidade de terra e trabalho, a detenção de conhecimentos tradicionais, a experiência acumulada na relação com a biodiversidade e as práticas agroecológicas voltadas ao atendimento dos mercados locais e regionais”, defende a pesquisadora.

Segundo ela, a participação da agricultura familiar nas cadeias e nos arranjos produtivos de plantas medicinais e fitoterápicos é estratégia fundamental para garantir insumos e produtos, para a ampliação dos mercados e melhor distribuição da riqueza gerada nas cadeias e nos arranjos produtivos. “A Amazônia já nasceu com a vocação para o fitoterápico”, diz ela.

O pesquisador Wagner Barbosa, da Ufpa, concorda. “Nosso caminho é a fitoterapia. Temos de aprimorar técnicas de controle de qualidade dos produtos e encontrar formas de organizar a sociedade para produzir esses medicamentos, mas que isso não se torne propriedade de grandes indústrias”.

Mas há entraves para isso. Tempo, falta de recursos e a legislação brasileira deixam de agilizar esse processo. Em outros países, a legislação é mais flexível. Com a biopirataria é fácil para uma indústria de maior fôlego obter a matéria-prima e dela extrair um produto sintético facilmente patenteável.

“Temos patentes de produtos, de formulação”, diz Wagner Barbosa, da UFPA. O ‘amor crescido’ é uma das plantas cujas propriedades como agente antibacteriano já foram comprovadas. Outra que já foi patenteada é a carapanaúba, que atua contra o parasita da malária. Todas com base no conhecimento popular.

“O problema é que há o entendimento de que aqui na Amazônia não há competência. Enquanto isso, a indústria farmacêutica está de olho, com pesquisadores levando material daqui, enquanto continuamos enrolados. Um imenso patrimônio genético está sendo levado de forma descontrolada para ser pesquisado fora. Não conseguimos controlar essa saída. É uma situação muito séria”, alerta Barbosa.

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Altamiro Borges: A derrota no Congresso e a sinuca de bico para Dilma

Altamiro Borges: A derrota no Congresso e a sinuca de bico para Dilma

Altamiro Borges: A derrota no Congresso e a sinuca de bico para Dilma

publicado em 31 de outubro de 2014 às 19:11
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Direita derrota participação popular
Por Altamiro Borges, em seu blog
Passada a eleição, com seu resultado bem apertado, a disputa política no Brasil deverá se intensificar e radicalizar.
Isto ficou patente na primeira contenda na Câmara Federal, na noite desta quarta-feira (29). PSDB, DEM e PPS, entre outras legendas de direita derrotadas no pleito, uniram-se a setores de centro-direita do PMDB para rejeitar decreto da presidenta Dilma que amplia a democracia no país, com a realização de consultas populares e a criação de conselhos da sociedade.
PT, PCdoB e PSOL ficaram isolados na defesa do projeto. Eles ainda tentaram adiar a votação, para superar o clima de ressentimento eleitoral, mas não obtiveram êxito.
A direita nativa, com sua mídia na vanguarda, festejou a vitória!
O decreto presidencial irá agora para votação no Senado, mas o cenário é ainda mais inóspito.
O senador Renan Calheiros (PMDB), presidente da casa, já anunciou que “essa coisa de criação de conselhos é conflituosa e não prospera no parlamento. Deverá cair”.
Ele ainda não fixou a data de votação, mas a mídia direitista exige pressa.
Depois da surra que levaram nas urnas, os barões da mídia querem retomar a ofensiva, acuando a presidenta reeleita.
A direita teme que o adiamento da votação possibilite o retorno da pressão dos movimentos sociais e sirva para desmascarar as forças políticas contrárias a ampliação dos mecanismos de participação popular – uma das exigências das jornadas de junho do ano passado.
Os tucanos e os demos não escondem seu medo à ampliação da democracia.
Para o líder do DEM, Mendonça Filho (PE), a realização de consultas públicas e a criação dos conselhos representam um perigo.
“O PT quer criar o bolivarianismo, aparelhar os conselhos para ignorar o Congresso e referendar as decisões do governo”, discursou no plenário da Câmara. No mesmo rumo, vários deputados do PSDB também esbravejaram contra o projeto – evidenciando que abandonaram há muito tempo o seu verniz socialdemocrata.
Já o presidente da Câmara Federal, Henrique Alves (PMDB), ressentindo com sua derrota na disputa do governo do Rio Grande do Norte, liderou a votação contra o projeto.
A reação raivosa ao decreto presidencial confirma a postura autoritária da direita nativa.
Como afirmou o líder do governo, deputado Henrique Fontana (PT-RS), “fico impressionado com isso, com a falta de diálogo. O decreto não cria novos conselhos, só estabelece regras para aumentar a participação popular e fortalece os conselhos existentes”.
Já o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, lamentou a votação e polemizou com os que derrotaram o projeto: “Nada mais anacrônico e contra os ventos da história, nada mais do que uma tentativa triste de se colocar contra uma vontade irreversível do povo brasileiro, que é a vontade da participação”.
A votação desta quarta-feira indica que o quadro político está se alterando rapidamente, com uma forte tendência à radicalização. No artigo abaixo, o jornalista Breno Altman, editor do site Opera Mundi, aponta quais seriam os desafios para esta nova fase:
*****
Maioria de centro-direita ameaça o governo
A derrubada do decreto sobre participação popular revela, ao mesmo tempo, o caráter antidemocrático do conservadorismo e seu avanço contra o petismo.
Mas iludem-se os que acham ter sido ocasional a aliança entre a oposição de direita e os partidos de centro, especialmente boa parcela do PMDB.
A polarização eleitoral, com choque frontal de projetos para o país, modificou o cenário político. Atraiu para o campo petista forças sociais e de esquerda que haviam se afastado nos últimos anos. Mas erodiu o apoio de grupos centristas cuja adesão ao governo era tática ou fisiológica.
Ao menos metade dos deputados e senadores do PMDB apoiou Aécio Neves no segundo turno. O mesmo se passou com outros partidos da base aliada.
O bloco conservador, insuflado pelos meios de comunicação e importantes corporações econômicas, busca aceleradamente construir um acordo que isole e paralise o governo.
Outro lance importante dessa estratégia foi o ataque frontal à proposta de plebiscito para a reforma política. As principais lideranças do PMDB se associaram ao PSDB, ao PPS e ao DEM para refutar a iniciativa.
O próximo lance neste jogo deverá ser o empenho para fazer de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) presidente da Câmara dos Deputados, a despeito do PT ter a maior bancada.
Listado entre os supostos beneficiários de desvios na Petrobrás, o deputado fluminense trata de costurar pactos que, na eventualidade de nova CPI sobre o caso, proteja a si próprio e seus aliados. De preferencia, transformando o PT no alvo preferencial das investigações.
A recondução de Renan Calheiros para a chefia do Senado, ou sua substituição por outro cacique da mesma tribo, consolidaria o cerco parlamentar à presidente.
O fato é que está se inviabilizando uma estratégia de governabilidade baseada centralmente em acordos parlamentares ou lastreada na coalizão prioritária com o PMDB.
Talvez houvesse alguma chance de sucesso se Dilma e seu partido aceitassem a chantagem, renunciando a partes fundamentais do programa vitorioso nas urnas e cedendo a políticas e interesses do neoconservadorismo.
Ainda assim, eventualmente desidratado e descredenciado junto à sua própria base social, o governo poderia ser visto como objetivo vulnerável, apropriado para um ataque frontal.
O governo e o PT precisam, com rapidez, decantar uma estratégia diferente para um distinto período político. Aliás, como tem afirmado o presidente da legenda, Rui Falcão.
O centro desta retificação estaria no estímulo à “energia mobilizadora” ressurgida durante a campanha, lembrada pela presidente em seu discurso da vitória, adotando todas as medidas para construir uma política de governabilidade social, vertebrada pela mobilização das ruas.
O governo não irá muito longe sem pressionar o parlamento de fora para dentro, fazendo da costura política um instrumento para formar maiorias a partir do confronto de posições na sociedade. Essa abordagem, diga-se, tem sido defendida por Ricardo Berzoini, ministro das Relações Institucionais.
O ponto de convergência estaria na campanha popular por um plebiscito que convoque Constituinte exclusiva para a reforma política. Trata-se, afinal, do nó górdio a ser desatado para remover a hegemonia conservadora sobre o Estado, acelerando e aprofundando as demais reformas.
Tal processo, finalmente, obrigaria à revisão da política de alianças. O PT poderia forjar uma frente parlamentar de esquerda, associado ao PC do B, além de deputados e senadores progressistas do PDT, do PSB, do PROS e do próprio PMDB, mas que também se abrisse para o PSOL.
Esta frente deveria ser parte de uma coalizão orgânica mais ampla, que agrupasse também os movimentos sociais e os sindicatos, as organizações populares e juvenis, em defesa de um programa mínimo de reformas.
O que não deveria se perder de vista é que a última jornada eleitoral mudou o patamar da disputa política no país. Velhas ideias precisam ser superadas para se seguir adiante.
Leia também:
justiça e cidadania andam juntos, vamos correr atraz dos nosso direitos,brasileiros precisam ser respeitados,

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EUA elogiam contribuição de Cuba na luta contra o ebola

EUA elogiam contribuição de Cuba na luta contra o ebola

reprodução
new york times‘New York Times’ já destacava na edição do último dia 19 a impressionante contribuição dos médicos cubanos

Nova York – A embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas, Samantha Power, elogiou nesta sexta-feira (31) a contribuição feita por Cuba na luta contra o ebola na África Ocidental e assegurou que seu país está muito agradecido. “Embora não os tenha encontrado pessoalmente, tenho que elogiar Cuba por enviar 265 profissionais médicos”, declarou Power em um ato organizado em Nova York pela agência de notícias britânicaReuters.

“Estamos trabalhando uns ao lado dos outros. Não há um esforço integrado (entre EUA e Cuba), em parte porque a ONU está desempenhando o comando e o controle, mas estamos muito agradecidos”, acrescentou.

A embaixadora americana destacou a rapidez com que Havana reagiu ao surto de ebola e lembrou que, além disso, o governo cubano vai enviar outros 200 profissionais de saúde à África. “Essa é uma grande carência e uma grande necessidade”, afirmou Power sobre a chegada desse pessoal médico à Libéria, Guiné e Serra Leoa, os três países mais afetados pela doença.

A embaixadora lembrou que, além de tratar diretamente os doentes, os profissionais chegados do exterior contribuem também formando pessoal local para dar resposta à epidemia.

Power, que acaba de retornar de uma visita à África Ocidental, disse sentir-se orgulhosa de ver “americanos, europeus, cubanos ou quem seja com todo equipamento protetor, em um calor abrasador, trabalhando turnos de duas horas, porque isso é tudo o que se pode tolerar nesse traje”.

Há mais de 50 anos, Estados Unidos e Cuba não têm relações diplomáticas e Washington tem imposto sobre a ilha um embargo econômico, comercial e financeiro.

Na terça-feira (28), a Assembleia Geral da ONU pediu a suspensão desse bloqueio, em um momento no qual cresce nos Estados Unidos o debate sobre a possibilidade de uma aproximação com Havana.

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A eleita e a ressaca pós eleição da ala oposicionista

A eleita e a ressaca pós eleição da ala oposicionista

merval pereira eleicao dilma
O jornalista Merval Pereira, da Globo News, foi um dos que lamentaram a vitória de Dilma (Reprodução)

Nádia Amaral*, Pragmatismo Político

Após a vitória para Presidenta Dilma Rousseff, aguardada nervosamente pelos brasileiros, em especial os cardiopatas, a oposição apresenta os primeiros traços de sua ressaca. É possível constatar claramente os atos de
“birra” dos revoltosos e a incitação pela violência.

Como toda eleição presidencial, em qualquer país do mundo, os brasileiros puderam presenciar um agressivo embate relativo às questões de cunho econômico, político, social e psicológico. Algumas das questões foram programadas pelos candidatos e outras criadas e administradas pelos psicólogos midiáticos.

Na eleição 2014, presenciamos notícias com informações explícitas ou implícitas (aquelas dirigidas diretamente ao subconsciente), onde cada veículo deixou clara sua posição governista ou oposicionista. Não esqueçamos que enquanto veículo midiático, as empresas precisam de recursos e enquanto homo sapiens, os jornalistas estão sob influência de suas próprias convicções.

Em contraposição à questão da “liberdade” de imprensa, vimos jornalistas impondo suas próprias convicções pessoais sobre cada candidato, alguns com classe outros nem tanto.

Quem assistiu o canal GloboNews, no domingo de eleição, pôde presenciar um clima estranho, para dizer o mínimo, entre a equipe formada por Gerson  Camarotti, Cristiana Lôbo, Dony De Nuccio, Merval Pereira e sua coordenadora, Renata Lo Prete.

Merval estava visivelmente vermelho (embora provavelmente desejasse estar azul), chocado e decepcionado com a reeleição. Renata, não pôde conter-se em chamá-lo à realidade traçando defesa à candidata e a inequívoca verdade, apertada ou não, o povo escolheu. Já Cristiana Lôbo, desconfortável com a agressividade do debate dos dois colegas, não levantava a cabeça e seus olhos podiam ser vistos apenas por cima dos óculos, enquanto Merval afundava seus dedos no aparelho celular.

Contudo, ultrapassada a overdose de embates políticos, e mediante a impossibilidade de alegar-se ilegitimidade no processo eleitoral, batem à porta os efeitos devastadores da abstinência para os oposicionistas.

Na terça-feira, dia 28/10, com o país já sonolento para notícias políticas, a Câmara dos Deputados “decidiu” pela conveniência de julgar a sustação do Decreto nº 8.243, de 23 de maio de 2014, que institui a Política Nacional de Participação Social – PNPS e o Sistema Nacional de Participação Social – SNPS.

O referido Decreto objetiva organizar e dar transparência quanto às esferas e respectivas instâncias de participação popular, só isso. O texto não cria cargos, não acarreta majoração orçamentária, não cria conselhos, não transfere competências de um poder a outro ou cria quaisquer pessoas jurídicas.

Os deputados, bem como os membros da sociedade civil que efetivamente leram o texto do Decreto, dados os argumentos acredito que uma parcela não leu, podem verificar que a intenção do texto é dar efetividade à participação popular prevista constitucionalmente, por meio de instrumentos de controle social.

Entre outros argumentos fornecidos, durante um estado aparentemente alucinógeno, os oposicionistas declararam que o Decreto pretendia golpear o Estado Democrático de Direito; que o Executivo queria usurpar a competência do legislativo; que se tratava de um golpe de natureza “bolivarianista” ou “bolchevique”.

Ora, em que pesem as fragilidades e o notório desconhecimento histórico das analogias empregadas pela oposição, o telespectador pôde testemunhar alguns governistas e aliados, pedirem inutilmente que a matéria fosse melhor discutida; que fosse travado diálogo mais amplo com os representantes da sociedade civil frisando que a própria OAB não teria verificado qualquer inconstitucionalidade no texto.

Houve gritos e discussões acaloradas, o presidente da casa debilmente tentava agilizar o processo e nervosamente “cortava” seus colegas chamando atenção para o tempo regimental, coincidentemente todos os interrompidos eram governistas ou aliados.

Interessante constatar a fragilidade dos argumentos apresentados, afinal, para o bem e para o mal, o regime democrático não exige qualquer sapiência ou formação acadêmica, seja histórica, política ou jurídica.

Ocorre que, sob nenhuma ótica o texto atacado pode ser interpretado como usurpador de competência. Os Conselhos permanentes de políticas públicas bem como os setores organizados da sociedade civil já estão lá, já existem e inclusive alguns são antiquíssimos, e pasmem! Tais Conselhos não são controlados pelo governo!

É vexatório e cobre-nos com uma sensação de “vergonha alheia”, constatar a instrumentalização da “birra política”, nada infantil, pela Câmara dos Deputados.

Todo o alarde deveu-se à previsão, trazida pelo Decreto, de que os Órgãos da Administração passem a “considerar” as reivindicações da sociedade civil quando da formulação, execução e monitoramento de políticas públicas.

Ora, não foi exatamente isso que a sociedade civil exigiu nas passeatas e manifestações dos últimos meses? Ter sua voz ouvida, ter sua opinião considerada quando da análise de suas reais necessidades e de modo mais efetivo.

Notoriamente, é razoável concluir que o “golpe de estado” alardeado pela ala oposicionista, contraditoriamente, será dado por aqueles que intencionam restringir ou cercear o direito de participação social nos temas de seu interesse.

Ora, sejam movidos pela ambição por mais controle político, seja por mero exercício de seu jus esperneandicontra vitória da Presidenta, é necessário que a oposição apresente argumentos mais sólidos e com o mínimo de pesquisa histórica, de modo à evitar às “gafes” desse gênero.

Quanto aos 402 parlamentares “presentes” na noite de terça (28/10), em especial aqueles que estabeleceram analogia do Decreto da Presidenta com as Revoluções de Bolívar e Lênin, solicito atuação com bom senso e preservem a boa imagem intelectual, ainda que fictícia, da Câmara dos Deputados.

Ainda que coubesse a analogia realizada, não seria proveitoso ou sequer pertinente utilizá-la, uma vez que os parâmetros sócio-políticos nem de longe tem aplicabilidade hoje.

Enquanto isso, nós sociedade, devemos escolher nossos jornalistas, digo, nossas posições, e ficarmos atentos às notícias. Afinal, a verdade e a mentira dependem da construção e da psicologia midiática agregada a um mesmo fato.

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