Dar-se conta das pessoas | Exercícios de empatia #2

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Imagem de Penélope Cruz é eleita a mais sexy do mundo O troféu anual da revista Esquire coroou, como já é tradição e motivo de refestelo para a homarada, uma imagem. Nesse ano a construção vencedora é aquela associada a uma mulher de quarenta anos chamada Penelope Cruz, nascida na Espanha em vinte e oito de abril de 1974. Primogênita da casa, tem um irmão mais novo cantor, Eduardo, e uma irmã mais nova e também atriz, Mônica. Aos quinze, Penelope es
Dar-se conta das pessoas | Exercícios de empatia #2

Vivemos cercadas de pessoas tão incríveis, tão humanas, com uma subjetividade tão profunda e única como a nossa.

Apesar disso, caminhamos pela vida como se fossem todas, ou quase todas, só figuras de papelão de quem desviamos para não trombar na rua.

Será assim tão difícil enxergar a humanidade das pessoas a nossa volta?

* * *

Esse é o segundo exercício de empatia. Antes de continuar a ler, ou de fazer o exercício, por favor, leia o primeiro texto dessa série, onde eu contextualizo os exercícios. 

* * *

História de um homem ridículo

Estava eu sentado em uma mesa de calçada, tomando meu café da manhã, quando passa por mim um homem ridículo.

Andando pela rua de forma confiante e decidida. Completamente ignorante do fato de ser tão ridículo. De estar tão fora do padrão, da regra, do correto. De ser tão feio, tão mal-vestido, tão tosco. O homem ridículo estava todo errado.

Não vou descrever o homem ridículo. Seria impossível descrevê-lo sem ser cúmplice de sua ridicularização, sem fazer vocês também o acharem ridículo.

Porque, um segundo depois, bateu a culpa, caiu a ficha, estourou a consciência.

E pensei: para uma ou mais pessoas, esse homem ridículo é a pessoa mais amada da vida, a pessoa mais importante do mundo. Para algumas pessoas idosas, ele sempre vai ser o bebê lindo que foi um dia, a criança cheia de promessa, o adolescente vigoroso e energético.

Que apesar dele estar passando pela rua a vinte metros de mim, de eu só estar enxergando-o por breves segundos, de eu nunca ter ouvido sua voz ou interagido com ele de qualquer maneira, de ele ser para mim só um figurante sem fala no ó-tão-importante filme da minha vida, de ele ser apenas uma figura de cartolina exemplificando o total oposto do padrão de beleza vigente….

Que ele era uma pessoa.

Caralho, uma pessoa.

Vocês entendem a enormidade disso?

Uma pessoa igual a mim. A MIM! Com os mesmos sentimentos. Que dá tanta importância a si mesmo quanto eu me dou. Que sempre viu tudo pelos seus próprios olhos. Que sempre sentiu todas as suas dores. Uma pessoa plena. Um homo sapiens adulto. Um indivíduo da espécie dominante do único planeta habitado que conhecemos. Por tudo que se sabe, ele é o ápice da evolução do cosmos. Ali, passando por mim, já se afastando. Tão ridículo.

Se esse homem ridículo morresse hoje, agora, fulminado por meu implacável julgamento, haveria gente sofrendo dor profunda, chorando, trabalhando o luto, relembrando melhores momentos compartilhados. Aquele homem ridículo deixaria um vazio talvez insuperável em corações que nem conheço.

Então, ele sumiu atrás de uma esquina, mas apareceu uma senhora de vestido verde, depois, uma adolescente patinadora, um ruivo e seu beagle, um gari de laranja, e foi quase que como uma sobrecarga de informação: todos pessoas. Cada um. Nenhum deles figurantes do filme da minha vida. Todos protagonistas de seus próprios filmes. Pessoas plenas.

Aí, finalmente, me dei conta: o único homem ridículo ali era eu.

01

* * *

Protagonistas do nosso próprio filme

Sempre que vemos um estranho no metrô e nos lembramos de já tê-lo visto no dia anterior na fila do banco, é um pouco como se deus estivesse com poucos figurantes:

“Vai lá, Zé, pro metrô!”

“Mas, deus, já estive na fila do banco ontem!”

“Ah, ele nunca vai perceber…!”

A piada é do Seinfeld, mas a sensação é bem característica dessa nossa época narcisista: de que somos os protagonistas do grande filme da nossa vida, repleto de figurantes que não importam, com um punhado de coadjuvantes que entram e saem de cena, tudo coroado pela brilhante narração em off dos nossos fulgurantes ó-tão-importantes pensamentos.

Pois bem. Vamos tentar superar isso.

Perceber que estamos cercadas de protagonistas de suas próprias histórias.

Que cada pessoa está protagonizando o seu próprio filme.

Que na verdade é um filme só e se chama o universo.

03

* * *

Um exercício para dar-se conta das pessoas a nossa volta

Quando estiver em um ambiente público com várias pessoas que você não conhece (ônibus, metrô, fila do banco, sala de espera, etc), tente dar-se conta da humanidade, individualidade, subjetividade de cada pessoa a sua volta.

Deixe expandir sua consciência. Saboreie o fato de estar cercado de pessoas. Recupere uma certa sensação de estranheza – que nem lembramos de ter perdido – de que cada uma daquelas figuras de papelão ali sentadas é um ser humano exatamente tão complexo, tão sublime, tão apaixonante, tão mesquinho quanto você. Uma por uma. Todas elas.

Não é preciso fazer nada externamente. As pessoas não precisam nem te perceber. Basta olhar para cada uma delas por poucos segundos e pensar:

Essa pessoa já foi um bebê fofo.

Esse aqui é a pessoa mais amada da vida de alguém.

Esse outro solta gemidos incríveis na hora de gozar que jamais escutarei.

Essa outra sentiu todas as suas dores e nenhuma das minhas, e eu nunca sentirei as dores dela, nem ela as minhas; etc.

Faça questão de ter realmente enxergado cada pessoa, de ter considerado sua humanidade individual por pelo menos alguns segundos antes de seguir adiante: aqui está uma pessoa, aqui está outra pessoa, isso aqui também é uma pessoa. Pessoa, pessoa, pessoa.

Evite interagir. Não desvie o olhar mas também não faça contato visual. Encarar já te coloca dentro da história da outra pessoa e pode até mesmo ocasionar uma reação indesejada. Para dar-se conta das pessoas a sua volta, você não precisa se mexer, trocar olhares, nada. É discreto e imperceptível.

Não pense muito sobre cada pessoa, quem é, de onde veio, quais são seus sonhos, nada disso. Nem mesmo interaja. Deixemos isso para as próximas lições. Essa primeira tarefa já é bastante difícil.

Se está achando fácil, é porque ainda não tentou. Além de dificílimo, é potencialmente enlouquecedor – mas também fascinante e instrutivo.

Talvez seja impossível. Ou não.

Só tentando para saber.

02

* * *

Quem quiser, por favor, deixe os resultados dos seus exercícios aqui nos comentários. O que sentiram, o que descobriram. Como foi a experiência?

Vou considerar que todas as pessoas que deixarem suas experiências nos comentários estão concordando que elas sejam possivelmente incorporados ao texto final. Se você não quer, avise. Qualquer coisa, peça e eu tiro.

* * *

Exercícios de empatia, a série completa

1. Praticar um olhar generoso
2. Dar-se conta das pessoas
3. Ver na sua totalidade
4. Ouvir com atenção plena
5. Exercer a não-opinião
6. Colocar-se em outra pessoa

* * *

Os exercícios de empatia serão o encerramento do meu futuro “Livro das Prisões”, logo após a Prisão Narcisismo, que será a última. Para ler prévias dos meus futuros textos, assine a minha lista de atualizações.

* * *

Três avisos importantes sobre meus textos

Eles falam sempre sobre e para as pessoas privilegiadas, justamente para tentar fazê-las ter consciência de seus enormes privilégios (Leia também Carta aberta às pessoas privilegiadas & Ação de graças pelos privilégios recebidos);

Buscam sempre usar uma linguagem de gênero neutra (Para mais detalhes, confira meu mini-manual pessoal para uso não sexista da língua);

E são sempre todos rigorosamente ficcionais(Ou não: Alex Castro não existesó o texto importa. Em caso de dúvida, consulte minha biografia do meu site pessoal.)

* * *

O encontro “As Prisões”

Há doze anos, escrevo sobre as bolas de ferro mentais e emocionais que arrastamos pela vida: as ideias pré-concebidas, as tradições mal-explicadas, os costumes sem-sentido.

Agora, estou promovendo o encontro ”As Prisões” por todo Brasil. O público-alvo são ovelhas negras em busca de interlocutores. O encontro oferece a oportunidade de passarmos o dia inteiro trocando histórias, compartilhando vidas, debatendo perplexidades. Ao final, nós, todas as pessoas, estamos exaustas, gastas, esvaziadas. Confusas, atarantadas, chacoalhadas.

O encontro “As Prisões“ é independente por ideologia. Não possui vínculo institucional algum. É divulgado pela internet de forma alternativa e realizado em praias, parques, quintais, praças. Oferece frutas e castanhas para comermos ao longo do dia e tem um intervalo para almoço. Começa sempre às nove da manhã de sábado ou de domingo e termina na hora que terminar. Muitas vezes, a química é tanta que não queremos ir embora: o encontro mais longo durou 15 horas.

O encontro é pago. Mas negar uma pessoa só porque ela não pode pagar seria dar importância demais a essa convenção arbitrária que chamamos dinheiro. Portanto, algumas pessoas pagam, outras pagam menos, outras não pagam. Na prática, as que pagam me possibilitam fazer o encontro para as que não pagam. Nada poderia ser mais solidário do que isso. (Para saber mais, consulte a política de gratuidades.)

Não é auto-ajuda, terapia, coaching. Não é palestra, aula, exposição de conteúdo. Não tem apostila, powerpoint, frases de efeito pra anotar no moleskine. Não oferece respostas, soluções, remédios. Não promete uma vida mais calma, mais centrada, mais bem-sucedida.

Não ajuda em nada. Pelo contrário, só atrapalha. Às vezes, nos transforma em pessoas ainda mais confusas, desajustadas, perdidas. Afinal, ser bem-sucedida e bem-ajustada em um mundo canalha pode bem ser indicativo de nossa própria canalhice.

Durante o ano de 2014, estou levando o encontro “”As Prisões” para quase todas as capitais do Brasil.

Para mais detalhes, vídeos, depoimentos, calendário completo, tudo isso, veja aqui.

Ao longo de 2014, todas As Prisões serão enviadas primeiro, com exclusividade, às pessoas assinantes do meu newsletter e, então, publicadas aqui no PapodeHomem. Confira as que já foram publicadas.
por Alex Castro

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